quinta-feira, 19 de março de 2026

A Sinagoga da Sociedade Israelita da Bahia - Arq. Sergio Kopinski Ekerman

A Sinagoga da Sociedade Israelita da Bahia (2010 -

Arq. Sergio Kopinski Ekerman

Sociedade Israelita da Bahia | Salvador | Bahia 

A sinagoga com os bancos restaurados

A Sinagoga da Sociedade Israelita da Bahia (SIB) está construída na sede da entidade, em Salvador, Bahia. É parte de uma estrutura mais abrangente, ainda em construção, que contempla também salão de eventos, cozinha, espaços educacionais, biblioteca, além de outras áreas administrativas, recreativas e culturais.

O espaço religioso, propriamente dito, desenhado para até 150 pessoas, tem formato retangular, de planta central, articulado em função de seus dois elementos fundamentais: o Aron HaKodesh, ou Arca Sagrada, onde guarda-se a Torah; e a bimah, o baldaquino, de onde conduz-se a liturgia.

A planta reproduz um modelo comum em sinagogas asquenazitas, ou seja, ligadas à tradição judaica oriunda do leste europeu.

Neste caso, a bimah localiza-se ao centro, tendo a congregação à sua volta, e mirando o muro orientado a leste onde fica a Torah (voltada a Jerusalém). A plateia está organizada em níveis diferentes, o que cria uma situação confortável para visualização da cerimônia. Todo o conjunto visa acentuar o caráter congregacional do espaço – a comunidade coloca-se em volta da liturgia, diferente do que ocorre em organizações planimétricas que situam a bimah e o Aron HaKodesh junto à parede leste, em formato de auditório com atenção unifocal.

O Aron HaKodesh e a bimah hoje em uso foram trazidos da antiga sinagoga, localizada no bairro de Nazaré. As duas peças em madeira maciça constituem uma forte referência para a comunidade, estando a Arca disposta num nicho de concreto aparente, ladeado por muros com o mesmo tratamento. O baldaquino, por sua vez, repousa no ponto central do retângulo.

A sinagoga antes da instalação dos bancos

A sinagoga é também o único espaço do prédio com a laje nervurada que caracteriza sua estrutura totalmente aparente, levando o pé-direito máximo a cerca de cinco metros e criando um teto de luzes e brilho. Quatro pilares de concreto armado aparente e seção circular delimitam o espaço principal e duas “naves” laterais, onde são dispostos os equipamentos de climatização, bem como assentos complementares para cerimônias com maior público. O vão de 12,5m cria boa visibilidade, sendo estes únicos elementos portantes também uma homenagem a espaços de sinagogas tradicionais polonesas que tinham apenas quatro pilares como estrutura de sua cobertura. Na contemporaneidade, este esquema estrutural é reinterpretado em consonância com as possibilidades tecnológicas do concreto armado, em comparação às abóbadas de pedra do medievo.

A luz natural é um elemento fundamental na composição geral, uma vez que reforça a liturgia a partir do destaque do muro leste, bem como do nicho sobre a Arca Sagrada, que recebe iluminação zenital difusa, de modo a evocar sobre a Torah a presença do sagrado, a luz divina.

Complementa o espaço uma menorah cerâmica, de autoria do escultor baiano Israel Kislansky, que colore o espaço com seu tom azul, destacando-se sobre o muro de concreto aparente ao lado do Aron HaKodesh, reforçando a tradicional relação entre arte e arquitetura no espaço religioso.

Neste contexto, a doação dos bancos da antiga sinagoga do colégio I.L. Peretz à Sociedade Israelita da Bahia representou oportunidade de mobiliar o espaço com elementos coerentes com todas as ideias ali dispostas. Em perfeita harmonia com o baldaquino e a arca sagrada, os bancos são também a expressão do diálogo entre elementos tradicionais de sinagogas mais antigas e o espaço contemporâneo, o que acabou por constituir um conjunto único no Brasil, capaz de conservar parcialmente a história de espaços religiosos tradicionais judaicos do século XX, ao mesmo tempo em que adaptado a novas demandas da comunidade.

É de grande importância agradecer aos doadores que fizeram chegar os móveis a Salvador. Em São Paulo, Nicola Nissim Pelosof, Myriam Rosenblit Szwarcbart, Edurado Alcalay (presidente da mantenedora do Colégio I. L. Peretz na ocasião da fusão das escolas Alef e Peretz) e a todos os envolvidos nesta cidade, bem como agradecer à associada da SIB, Tália Dantas Carvalho, que viabilizou e providenciou a reforma e revitalização dos móveis para sua efetiva instalação e utilização no último mês de janeiro de 2026.


segunda-feira, 2 de março de 2026

Sinagogas, memórias, histórias e a comunidade judaica

Sinagoga Israelita da Lapa -
Ilustração: Myriam R. Szwarcbart

As sinagogas em São Paulo foram construídas em diversos momentos da vida da comunidade judaica, desde a chegada dos primeiros imigrantes até a consolidação de instituições e a formação de novas gerações. Em seus espaços ocorreram, e ocorrem ainda hoje, celebrações, rituais, encontros, estudos. A memória, além da manutenção da história e da identidade judaica, está presente nas paredes e nos objetos litúrgicos preservados nesses espaços, transmitindo valores e tradições através do tempo.

Como já publicado em diversas postagens deste blog, as sinagogas paulistanas exibem uma variedade de estilos, desde as linhas mais tradicionais até as expressões contemporâneas. Podem-se citar exemplos como o edifício da Sinagoga Beth-El, hoje Museu Judaico de São Paulo, tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP) e a Congregação Israelita Paulista (CIP), projetada por Henrique Mindlin, a qual incorpora elementos da arquitetura moderna brasileira e evidencia a integração da comunidade judaica ao tecido social e cultural da cidade.

Este patrimônio cultural implica, hoje em dia, em ações de preservação de seus edifícios, na documentação de suas histórias e na promoção de seu significado para a sociedade em geral. Por outro lado, a transformação de algumas das sinagogas em novos espaços com novos usos demonstra o potencial desses locais para se tornarem centros de divulgação da cultura judaica, da diversidade cultural e na construção de uma sociedade mais plural.

A manutenção dos edifícios das sinagogas, muitos deles em desuso, apresentam diversos desafios. Sinagogas antigas necessitam de restauro, retrofit, revitalização ou atualizações em suas instalações, a fim de evitar a deterioração de suas estruturas e elementos internos. Obter recursos para sua manutenção muitas vezes é um obstáculo enfrentado pelas instituições e comunidades dos diversos bairros e cidades do país. As mudanças e deslocamentos para novas regiões podem levar ao abandono dos edifícios das sinagogas, ou sua descaracterização, fato este que realmente ocorreu, e ainda ocorre, em diversas partes do país.

Apesar de desafios enfrentados na preservação ou readequação dos espaços sinagogais, pode-se ressaltar que estes espaços são arquivos vivos de rituais, costumes e tradições transmitidas ao longo do tempo (memória histórica). Muitas das sinagogas possuem valor arquitetônico, ao refletirem diferentes estilos e influências culturais, sendo um legado artístico e de destaque para a história da construção no Brasil. Preservá-las também é essencial para a continuidade da vida religiosa e cultural judaica, fortalecendo o senso de pertencimento e identidade.

Você ou sua família frequentaram ou frequentam alguma sinagoga? Seus familiares fizeram parte da fundação destas? Gostaria de escrever um texto contando sua história? Deixe um comentário aqui no blog, ou escreva para mim no e-mail myrinhars@gmail.com


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

As sinagogas como patrimônio cultural

 

Durante o ano de 2025, e agora, em fevereiro de 2026, participei de cursos relacionados à imigração, memória e identidade judaica, expressões artísticas, patrimoniais, culturais. Abordei, em minhas aulas, o tema das sinagogas como patrimônio.

As sinagogas paulistas representam um patrimônio cultural valioso, entrelaçando história, arquitetura, religião e memória da comunidade judaica, preservando sua identidade em um contexto dinâmico e multicultural como São Paulo.

Esses espaços, muito mais do que locais de culto, constituem um patrimônio cultural, histórico e arquitetônico de valor inestimável para as comunidades judaicas e para a sociedade em geral.

Historicamente, ao longo dos séculos, esses espaços serviram como centros de aprendizado e da vida comunitária, testemunhando a resiliência, a fé e a rica tradição judaica em diferentes partes do mundo. Além das celebrações religiosas, elas abrigavam escolas, tribunais, espaços de assistência social e encontros comunitários. Em tempos de perseguição e adversidade, as sinagogas muitas vezes se tornaram símbolos de resistência e identidade, preservando a cultura e a coesão do povo judeu.

Arquitetonicamente, as sinagogas exibem uma diversidade impressionante, refletindo as influências culturais dos locais onde foram construídas. Desde as grandiosas sinagogas históricas da Europa e do Oriente Médio, com seus detalhes ornamentados e imponentes cúpulas, até as linhas mais modernas e adaptadas às realidades locais em outros continentes, cada uma conta uma história única. Seus elementos internos, como a Arca Sagrada (Aron Kodesh ou Hekhal), o púlpito (Bimá ou Tebá), vitrais, luminárias, candelabros e os assentos, são dispostos com significado e beleza, criando um ambiente propício à oração e ao estudo.

Os costumes, as melodias, os rituais e ritos de orações, as línguas faladas pelos imigrantes e as histórias de vida transmitidas oralmente de geração em geração, que ecoam nos espaços sinagogais, compõem um mosaico cultural diverso. Preservar esses espaços significa manter viva a história judaica, além de promover o diálogo intercultural e a compreensão mútua.

Reconhecer as sinagogas como patrimônio implica em sua proteção e valorização. Isso envolve a conservação de seus edifícios, da documentação de sua história e a promoção de seu significado para as gerações presentes e futuras. Implica, da mesma maneira, na readequação e no retrofit dos edifícios existentes, ou na busca por novos espaços. Ao fazê-lo, honramos a memória daqueles que construíram e mantiveram esses espaços sinagogais e enriquecemos nosso entendimento da diversidade cultural que molda a todos.

Deste modo, preservar as sinagogas como patrimônio cultural significa reconhecer a importância da diversidade religiosa e étnica na formação da identidade paulistana, paulista e brasileira, promovendo o respeito e a valorização da memória de diferentes grupos que contribuíram para a construção da sociedade brasileira.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A Sociedade Religiosa Beit Haknesset Adat Ischurum em dezembro de 2025

Como publicado na postagem anterior, estive em dezembro de 2025 visitando, por mais uma vez a Sociedade Religiosa Beit Haknesset Adat Ischurum, conhecida como Shil da Vila, no bairro no Bom Retiro. Compartilho aqui mais algumas informações sobre esta sinagoga, incluindo alguns detalhes já publicados anteriormente.

A arquitetura atual da Sinagoga Adat Ischurun (Shil da Vila), situada na Rua Prates, reflete a modernização realizada na década de 1990, que transformou a antiga residência original em um novo espaço religioso. O projeto, assinado pelo arquiteto Eloy Fichberg, destaca-se pela sua fachada discreta que se integra na malha urbana do Bom Retiro, mas que revela um interior planejado detalhadamente.

O edifício utiliza tijolos de vidro, uma escolha que permite a entrada de luz difusa, garantindo privacidade em relação à rua, ao mesmo tempo que mantém o ambiente interno iluminado. Um dos elementos centrais da sua arquitetura é a iluminação zenital, no salão principal. O espaço interno foi projetado para acomodar aproximadamente 300 pessoas, com um foco especial na qualidade sonora, contando com a consultoria acústica de Szaja Akerman para assegurar que as orações e cânticos sejam ouvidos com clareza em todo o recinto.

O mobiliário e os elementos litúrgicos, como o Arca Sagrada (Aron Hakodesh/Hechal), harmonizam-se com a estrutura da sinagoga, a qual é também um memorial físico: as paredes e espaços comuns contêm placas comemorativas que registram os nomes dos fundadores e das famílias que contribuíram para a construção e manutenção deste Shil. Esta combinação de materiais modernos, como o vidro e o metal, com o simbolismo tradicional judaico, cria uma atmosfera que é, simultaneamente, acolhedora e solene, preservando a memória desta sinagoga na antiga vila.

No que diz respeito aos objetos e elementos arquitetônicos, o Shil da Vila destaca-se pela simplicidade e pelo valor histórico de seu mobiliário. O Aron Hakodesh/Hechal, ou Arca Sagrada, é feito de madeira escura avermelhada, e apresenta em seu topo esculturas clássicas de leões que guardam as Tábuas da Lei. O ambiente interno é organizado com uma Bimá elevada e bancos de madeira, que possuem compartimentos para os livros de reza, assim como placas de identificação afixadas. O espaço é dividido tradicionalmente, com o setor feminino localizado em uma galeria superior, permitindo que a sinagoga continue servindo como um ponto de encontro vital para os ritos do ciclo de vida judaico na região.

Você ou sua família frequentaram o Shil da Vila? Seus familiares fizeram parte de sua fundação? Gostaria de escrever um texto contando sua história? Deixe um comentário aqui no blog, ou escreva para mim no e-mail myrinhars@gmail.com


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Revisitando o Shil da Vila no Bom Retiro

Estive em dezembro de 2025 visitando, por mais uma vez a Sociedade Religiosa Beit Haknesset Adat Ischurum, conhecida como Shil da Vila, no bairro no Bom Retiro, junto a um grupo que não conhecia esta sinagoga. Naquela visita conversamos sobre a fundação da sinagoga, seus objetos e mobiliário. Compartilho aqui e na próxima postagem algumas informações sobre esta sinagoga, incluindo detalhes já compartilhados em visitas anteriores.

O Shil da Vila, situada na antiga Vila Anibal, possui uma trajetória profundamente ligada à imigração judaica no bairro do Bom Retiro em São Paulo.  Sua origem remonta ao início do século XX, especificamente a 1908, quando foi fundada por imigrantes judeus provenientes principalmente da Polônia, que dali fugiam de perseguições e dificuldades extremas. Este Shil esteve situado em outros endereços, em casas alugadas, antes de se estabelecer definitivamente na Rua Padre Edgar de Aquino Rocha, uma vila de poucas casas, travessa da Rua Prates.

O espaço passou por um processo de renovação, na década de 1990, preservando, no entanto, uma atmosfera que remete às pequenas sinagogas da Europa Oriental. A aquisição de uma casa vizinha permitiu reformas, transformações e ampliações significativas. O projeto arquitetônico moderno, assinado pelo arquiteto Eloy Fichberg com consultoria acústica de Szaja Akerman e engenharia de Milton Birman, foi desenhado para acolher cerca de 300 pessoas. A arquitetura destaca-se pelo uso de tijolos de vidro e iluminação zenital por meio de uma cúpula central, garantindo a entrada de luz natural ao ambiente interno. 

O projeto arquitetônico, impulsionado por membros da comunidade, com destaque para a participação de Samuel Klein, funde o respeito à tradição com uma estética contemporânea. Detalhes como a acústica planejada e as placas que homenageiam os antepassados reforçam o papel do local como um guardião da memória coletiva. A sinagoga mantém-se como uma instituição independente, preservando a sua identidade comunitária e as memórias das famílias fundadoras. Continua a ser um ponto de referência cultural, carregando consigo as vivências de gerações.

Você ou sua família frequentaram o Shil da Vila? Seus familiares fizeram parte de sua fundação? Gostaria de escrever um texto contando sua história? Deixe um comentário aqui no blog, ou escreva para mim no e-mail myrinhars@gmail.com

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Mazalot - signos do Zodíaco - no Centro Israelita do Cambuci

Conta-se que os desenhos dos Mazalot nesta sinagoga foram feitos por um artista-arquiteto judeu polonês, o mesmo que, também decorou a sinagoga do Brás. Este artista voltou para a Polônia antes da II Guerra Mundial. A representação do zodíaco era um tema artístico e motivo decorativo comum a várias sinagogas da Polônia e do leste europeu como um todo. Este tema também estava presente em algumas sinagogas antigas em Israel, e realizadas em mosaicos, a exemplo de Beith Alfa, próximo a Beith Shean.

Escola Israelita Brasileira do Cambuci

Ao se construir uma sinagoga, construía-se uma escola...

A construção da Escola do Cambuci foi feita pelo sr. Samuel Belk e iniciou seu funcionamento em 1945. Francisco Moreno Z”L  comentava que os pais trabalharam como zeladores desta escola, de 1954 a 1960, e se lembrava que fizeram parte professores como moré Levin, morá Sara Dingot (que na Polônia frequentava os círculos literários de Varsóvia) e mora Golda. A escola também absorveu imigrantes judeus originários do Oriente Médio, sendo frequentada, assim, pela comunidade ashkenazi e por mizrahim (inicialmente moradores da Mooca) Francisco Moreno também nos contava que "o Cambuci abrigou o movimento juvenil Kadima, do qual fez parte Iara Iavelberg, cuja família era do bairro do Ipiranga".

Ao compartilhar as últimas postagens sobre a Sinagoga do Cambuci no Facebook, Annette Waidergorn escreveu: “Meu avô Pedro Waidergorn, foi um dos fundadores. Passei muitos Yom Kipur nesta sinagoga”. E Marcia Eskenazi  comentou: “Meus pais também... e da escola, aonde estudei por vários anos da minha infância. A sinagoga era frequentada por toda minha família porque morávamos no Cambuci”.

Aqui pergunto: Você ou sua família frequentaram a Sinagoga do Cambuci? Seus familiares fizeram parte de sua fundação? Estudaram na escola ao lado da sinagoga?? Deixe um comentário aqui no blog, ou escreva para mim no e-mail myrinhars@gmail.com

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O edifício do Centro Israelita do Cambuci

O Centro Israelita do Cambuci, fundado em 1941, situa-se próximo à Rua do Lavapés, e ao lado da Escola Israelita Brasileira do Cambuci, que ali funcionou até fundir-se com o Colegio I.L.Peretz.

A edificação possui um salão para kidush no piso térreo e duas escadas laterais conduzem à entrada desta, no primeiro piso, da mesma forma como víamos na Sinagoga Mordechai Guertzenstein. Porém, na sinagoga do Cambuci, as escadas situam-se na parte externa. Neste primeiro piso, uma porta de madeira de folha dupla dá acesso à ala masculina. Fileiras de bancos e respectivos apoios para sidurim, com espaço para guardá-los, ladeiam um corredor central. Tais bancos, em madeira, ainda conservam as plaquinhas de identificação de seus antigos ocupantes. Já a ala feminina, originalmente situava-se em um piso superior, no formato das antigas sinagogas. Esta sinagoga ficou desativada durante 15 anos, sendo reaberta em junho de 2014, porém esta desativada novamente.

O projeto da Sinagoga do Cambuci, “conforme consta do seu processo de aprovação Proc.52.062/40PMSP foi assinado pelo engenheiro Leo Bonfim Dei Vegni Neri (engenheiro formado pela Poli-USP) tendo como responsável pela construção David Biase...” Esta é uma informação que podemos ler no interessante artigo “Como cantaríamos o canto do Senhor numa terra estrangeira (Salmos,137,4)”, escrito pela Dra. Anat Falbel (UNICAMP/IFCH) e publicado no Boletim Informativo Arquivo Histórico Judaico Brasileiro 35, Ano IX-Janeiro/Abril 2006, páginas 10-18. Projeto de engenheiros que não pertenciam à comunidade judaica, como ocorreu em algumas sinagogas paulistas.

Os projetos das sinagogas da primeira metade do século XX refletiam o partido arquitetônico presente nas comunidades de origem dos imigrantes que as construíram. Percebemos isto no espaço interno desta sinagoga. Esta sinagoga, porém, em sua fachada/área externa, possui elementos que remetem à arquitetura modernista (ou até à Art Deco), em sua simetria, formas simples, geométricas, linhas retas, estética minimalista e rejeição de ornamentos excessivos, priorizando o "menos é mais". Olhando-a de passagem, poucos detalhes externos remetem a uma sinagoga.

Consta, em uma placa de 1941, instalada no interior do edifício, os nomes dos que fizeram parte da “Comissão que construiu a Sede Social”  da sinagoga. Podemos ler:

Presidente: Benjamin Lafer

Vice-presidente: Pedro Waidergorn

Secretário: Elias Sitzer

Vice: Herman Sidsamer

Tesoureiro: Mauricio Zimberg

Vice: Luiz Chamis

Conselho Fiscal composto por: Abrão Gerson, Benjamin Zimberg, David Klevand, Raphael Kremer e Germano Baumohl

Uma outra placa informa, porém, que a comunidade judaica estava presente no bairro já em 1925.

Na próxima postagem, divulgo detalhes sobre os mazalot, ou signos do zodíaco, presentes nesta sinagoga. 

E pergunto: Você ou sua família frequentaram a Sinagoga do Cambuci? Seus familiares fizeram parte de sua fundação? Estudaram na escola ao lado da sinagoga?? Deixe um comentário aqui no blog, ou escreva para mim no e-mail myrinhars@gmail.com


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Visita ao Centro Israelita do Cambuci

Estive no dia 13 de novembro de 2025 visitando, por mais uma vez, o Centro Israelita do Cambuci, junto a um grupo que não conhecia esta sinagoga. Fomos recebidos por Sergio Goldenstein e Sergio Tomchinsky. Conversamos sobre o bairro, sobre a fundação da sinagoga, objetos presentes, mobiliário, as pinturas de mazalót (zodiaco). Compartilho aqui e nas próximas postagens algumas informações sobre o Cambuci, sua comunidade judaica e a sinagoga.

O bairro do Cambuci

O bairro do Cambuci, um dos mais antigos da cidade, conhecido desde o século XVI, recebeu tal nome a partir de uma árvore da região, de um córrego e também significando “pote” em tupi-guarani. No seu início, passava pela região uma trilha de acesso ao Caminho do Mar, utilizado por tropeiros para chegar a Santos.

Com o tempo, desenvolveram-se ao redor deste um pequeno comércio e algumas chácaras, sítios, plantações e fazendas. No passado, um córrego da região, na atual Rua do Lavapés, marcava a divisa entre a zona urbana e rural. Neste córrego, os tropeiros e viajantes tinham o hábito de lavar os pés e dar de beber aos animais, antes de seguirem para a cidade. Neste bairro, uma Capela foi erguida em 1870 e o Museu do Ipiranga em 1890. A construção de uma linha de bondes, ligando o centro ao Museu, valorizou a região. Baixada do Glicério – área alagadiça

Acompanhando a industrialização do país, toda a região serviu à instalação de diversas fábricas, e com a chegada de migrantes europeus, a maioria de italianos e sírio-libaneses, o limite urbano no Cambuci ampliou-se. Novas ruas surgiram, terrenos foram loteados, casas e fábricas começaram a ser instaladas na região, delineando-se, assim, algumas características do bairro preservadas até hoje, como alguns galpões fabris e sobrados.

A tomada da Igreja da Glória, ponto alto do bairro, por rebeldes durante a Revolução de 1924, marcou a história do Cambuci. Assim como o Brás e a Mooca, foi um dos bairros mais atingidos pela luta neste período.

A partir da década de 1970, as fábricas começaram a abandonar o bairro, seguindo a tendência de se mudarem para locais mais afastados. O bairro, aos poucos, mudou seu aspecto fabril para se tornar um bairro de serviços e comércio no eixo do Largo do Cambuci e da Avenida Lins de Vasconcelos. Com predominância de áreas residenciais, o bairro tornou-se foco das incorporadoras e construtoras no boom imobiliário paulista, por ser próximo ao centro, possibilitando diversos lançamentos de apartamento de classe média.

O artista plástico Alfredo Volpi (1996-1988), morador do Cambuci, retratou o bairro, que foi criado em 19 de dezembro de 1906, pela Lei 1040 B . O distrito é composto por Vila Deodoro, uma pequena parte da Mooca e Cambuci. 

A comunidade judaica do Cambuci 

De um modo geral, as comunidades judaicas de São Paulo, tanto na capital como no interior estabeleceram-se ao longo das estações das estradas de ferro, da linhas de trem.

A comunidade do bairro foi formada tanto por imigrantes judeus provenientes da Europa Oriental como por imigrantes judeus originários do Oriente Médio. Os que aqui chegaram da Europa fundaram e frequentaram o Centro Israelita do Cambuci. Já a comunidade judaica mizrahi, proveniente do Oriente Médio/Império Otomano permaneceu ligada ao bairro da Mooca e às suas sinagogas.

Consta da placa do Merkaz-Israel-de-Cambuci, no Centro Israelita do Cambuci, as datas de 1925-1965, o que aponta que a comunidade judaica estava presente no bairro muito antes da construção da sinagoga. Contém os nomes dos presidentes Miguel Blay, Sigismundo Spindel, Benjamin Lafer e Abrão Zaguer.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Mooca Judaica, Unibes Cultural, Museu Judaico de São Paulo, sinagogas e o novo curso de CPF SESC


Um novo curso no Centro de Pesquisa e Formação terá inicio em 11 de novembro de 2025!

E estão previstas visitas à exposição “Mooca Judaica: histórias e memórias de uma comunidade”, na Unibes Cultural, visitas às sinagogas, visita ao Museu Judaico de São Paulo, ao Bom Retiro, incluindo a ‘Casa do Povo”, alguns dos diversos espaços de memória e de legado da historiada comunidade judaica em São Paulo.


Este curso, “Expressões da presença judaica no Brasil: comunidades, memórias e arquiteturas” será ministrado por Adriana Abuhab Bialski, Ernesto Mifano Honisgsberg, Maria Lúcia Guilherme e por mim e, como podemos ler no texto de divulgação do Centro de Pesquisa e informação do Sesc, tem como objetivo introduzir a diversidade cultural do judaísmo brasileito, as comunidades que se estabeleceram no país a partir do século XIX, apresentar os três principais grupos judaicos conforme sua origem - asquenazes, sefarditas e orientais -  e focar nas particularidades no contexto da imigração contemporânea, como o idioma, tradições, costumes, simbologias, literatura, artes.

 

As sinagogas, tema principal deste blog, serão exploradas não apenas como espaço de culto, mas também como espaços culturais e de encontro, representando o importante patrimônio arquitetônico judaico-brasileiro.

 

Não percam! Três aulas presenciais no Sesc e três aulas externas!

Façam suas inscrições no link: https://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/expressoes-da-presenca-judaica-no-brasil-comunidades-memorias-e-arquiteturas

 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Uma pausa em 2025 e aulas sobre “Sinagogas como Patrimônio"

Com a chegada do ano de 2025, há seis meses, novas oportunidades surgiram à minha frente, e, desde fevereiro, ao lado de Adriana Abuhab Bialski, Maria Lúcia Guilherme e Ernesto Mifano Honigsberg, tenho participado de cursos relacionados aos judeus no Brasil, suas imigrações, memórias, culturas, sinagogas, comunidades e diversidades.

Ministramos, até o momento, um curso de verão na FFLCH USP, um curso no "IBI no campus", e um curso na Unibes Cultural, cada um com diferentes abordagens. Um novo caminho que venho percorrendo, incentivada e motivada por esta equipe e pelo público que tem participado de cada aula. 

O tema de minhas aulas, “Sinagogas como Patrimônio” está diretamente relacionado às postagens deste blog, ao longo do tempo, como um recorte do estudo que realizo sobre as sinagogas paulistas. No entanto apresento o significado, origem, objetos e mobiliários das sinagogas; sinagogas sefarditas, asquenazes, orientais; ortodoxas, conservativas, liberais; sinagogas no Brasil e, em particular, em São Paulo; patrimônio cultural e definições; revitalização, readequação, retrofit e reuso dos espaços edificados, sinagogas como patrimônio, lugares de memória,  mudanças e novos usos, sinagogas demolidas.

Novos cursos, em diferentes espaços, estão programados, além da divulgação, em breve, do trabalho de resgate de memórias de uma das comunidades judaicas paulistanas, em conjunto com Adriana Abuhab Bialski.

Agradeço o apoio que temos recebido!!!