quinta-feira, 16 de julho de 2026

As sinagogas em São Paulo: resgate de memórias e histórias

O presente texto é um recorte da pesquisa que venho realizando ao longo do tempo, relacionada às sinagogas de São Paulo, tanto da capital como do interior paulista, tendo como foco o estudo das comunidades judaicas nos locais em que se estabeleceram. 

A percepção da existência de uma lacuna relativa ao conhecimento e compreensão destas comunidades judaicas por uma comunidade mais ampla possibilita a proposta de realização de um projeto de roteiro cultural com o objetivo de divulgar, difundir e resgatar o patrimônio material e imaterial desta coletividade em sua diversidade. A organização, catalogação e divulgação do material reunido até o momento, incluindo visitas às sinagogas e arquivos existentes, entrevistas relatando histórias de vida desta parcela de população imigrante, e a coleta de documentos, fotos e objetos que ainda estão por ser localizados, possibilitam, também, a continuidade desta pesquisa.

A comunidade judaica da Vila Mariana foi o ponto de partida para o levantamento de dados das diversas sinagogas paulistas, na busca por informações, histórias e memórias. Na cidade de São Paulo foram identificadas setenta sinagogas, que existiram ao longo do tempo, sendo que muitas delas foram desativadas ou tiveram seus usos alterados.

A proposta de realização de um roteiro cultural relacionado à comunidade judaica, em particular às sinagogas paulistanas nos diversos bairros da capital em que esta comunidade imigrante se estabeleceu, ao longo das estações das estradas de ferro, engloba a elaboração de um guia, impresso e digital, além de uma exposição no bairro do Bom Retiro, de forma a revalorizar o patrimônio e bens culturais existentes. 

O Guia das Sinagogas em São Paulo possibilita o acesso à localização das edificações, mesmo as já demolidas, e o conhecimento de suas histórias, para a população como um todo, sejam os moradores da capital, ou turistas de outras localidades. Revalorizar, desta forma, este patrimônio como legado para as futuras gerações, considerando não só o passado e o presente, mas também olhando para o que esta por vir.

Este projeto está em concordância à pesquisa que realizo, na percepção das “potencialidades turísticas contidas na dimensão urbana dos museus e na dimensão museológica do espaço urbano a partir de experiências e metodologias inovadoras”, “ao avanço dos processos de refuncionalização do patrimônio e de requalificação de áreas urbanas que visam a inserir as cidades em circuitos turísticos mundiais”, “os usos do patrimônio cultural pelo turismo”, “o turismo fundamentado no território”. (IMU5022 - PROFA. DRA. CLARISSA M. R. GAGLIARDI*).

Ambos os projetos, o Guia das Sinagogas em São Paulo e a exposição Sinagogas do Bom Retiro foram aprovados em Leis de Incentivo, o primeiro em Lei Federal (Lei Rouanet), e o segundo em Lei Municipal (Promac), porém ainda não foram efetivados.

A presença da comunidade judaica em São Paulo pode ser verificada desde 1578, através de Atas da Câmara de S. Paulo que citam perseguições a "judaizantes”, assim como nos séculos seguintes, através do Tratado de Amizade e Paz (1810), em que se conferiu liberdade religiosa, possibilitando a imigração judaica de ingleses, alemães, franceses, ou da presença do Dr. Samuel Edouard da Costa Mesquita como o primeiro rabino em São Paulo (1860). 

A imigração judaica à capital e interior paulista ganhou força, porém, a partir do início do século XX. Como exemplo podem ser citados os imigrantes judeus de origem russa que seguiram para os núcleos coloniais paulistas como Nova Odessa, Jorge Tibiriça ou Campos Salles, os sefaradim originários do Império Otomano, os mizrahim (orientais) que se encaminharam para o bairro de Mooca (SP), e os que aqui chegaram a partir da região europeia (Polônia, Bessarábia, Lituânia, Letônia, entre outros), fruto das perseguições e situação econômica precária em seus países de origem. No período “Entre Guerras”, ocorreu a entrada maciça de imigrantes judeus da Europa (perseguição), porém durante a Segunda Guerra Mundial, a imigração judaica diminuiu, tanto pelas leis restritivas do país, como pela dificuldade de saída da Europa. Uma nova onda imigratória ocorreu no período de 1952 -1962, de judeus provenientes de países árabes e da Hungria. Dados puderam ser observados em consultas de arquivos no Museu da Imigração.

A partir do porto de Santos, de trem, para São Paulo, imigrantes judeus desembarcaram ao longo das estações ferroviárias e se estabeleceram, em um mesmo período, em diversos bairros da capital paulista. Fixaram residências no Brás, Ipiranga, Cambuci, Vila Mariana, Penha, São Miguel Paulista, Lapa, Pinheiros, e em diversas outras regiões, e ali, muitas vezes, formaram suas sinagogas.

Aguardem mais detalhes! Este texto continua nas próximas postagens.

Você ou sua família frequentaram ou frequentam sinagogas? Conte mais sobre isso, escrevendo um texto ou comentários. Envie para o e-mail myrinhars@gmails.com

*Este texto faz parte do Trabalho apresentado para a Disciplina IMU5022 MUSEUS, PATRIMÔNIO CULTURAL E TURISMO NO CONTEXTO URBANO CONTEMPORÂNEO - PROFA. DRA. CLARISSA M. R. GAGLIARDI - PPGMus MAE USP

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