O
presente texto é um recorte da pesquisa que venho realizando ao longo do tempo,
relacionada às sinagogas de São Paulo, tanto da capital como do interior
paulista, tendo como foco o estudo das comunidades judaicas nos locais em que
se estabeleceram.
A percepção da existência de uma lacuna
relativa ao conhecimento e compreensão destas comunidades judaicas por uma
comunidade mais ampla possibilita a proposta de realização de um projeto de
roteiro cultural com o objetivo de divulgar, difundir e resgatar o patrimônio
material e imaterial desta coletividade em sua diversidade. A organização, catalogação e divulgação do material
reunido até o momento, incluindo visitas às sinagogas e arquivos existentes,
entrevistas relatando histórias de vida desta parcela de população imigrante, e
a coleta de documentos, fotos e objetos que ainda estão por ser localizados,
possibilitam, também, a continuidade desta pesquisa.
A comunidade
judaica da Vila Mariana foi o ponto de partida para o levantamento de dados das
diversas sinagogas paulistas, na busca por informações, histórias e memórias.
Na cidade de São Paulo foram identificadas setenta sinagogas, que existiram ao
longo do tempo, sendo que muitas delas foram desativadas ou tiveram seus usos
alterados.
A proposta
de realização de um roteiro cultural relacionado à comunidade judaica, em
particular às sinagogas paulistanas nos diversos bairros da capital em que esta
comunidade imigrante se estabeleceu, ao longo das estações das estradas de
ferro, engloba a elaboração de um guia, impresso e digital, além de uma
exposição no bairro do Bom Retiro, de forma a revalorizar o patrimônio e bens
culturais existentes.
O Guia das Sinagogas em São Paulo
possibilita o acesso à localização das edificações, mesmo as já demolidas, e o
conhecimento de suas histórias, para a população como um todo, sejam os
moradores da capital, ou turistas de outras localidades. Revalorizar, desta
forma, este patrimônio como legado para as futuras gerações, considerando não só o passado
e o presente, mas também olhando para o que esta por vir.
Este projeto está em concordância à
pesquisa que realizo, na percepção das “potencialidades turísticas contidas na
dimensão urbana dos museus e na dimensão museológica do espaço urbano a partir
de experiências e metodologias inovadoras”, “ao avanço dos processos de
refuncionalização do patrimônio e de requalificação de áreas urbanas que visam
a inserir as cidades em circuitos turísticos mundiais”, “os usos do patrimônio
cultural pelo turismo”, “o turismo fundamentado no território”. (IMU5022 - PROFA. DRA. CLARISSA M. R.
GAGLIARDI*).
Ambos os projetos, o Guia das Sinagogas em São Paulo e a exposição
Sinagogas do Bom Retiro foram
aprovados em Leis de Incentivo, o primeiro em Lei Federal (Lei Rouanet), e o
segundo em Lei Municipal (Promac), porém ainda não foram efetivados.
A presença da comunidade judaica em São Paulo pode ser verificada desde 1578, através de Atas da Câmara de S. Paulo que citam perseguições a "judaizantes”, assim como nos séculos seguintes, através do Tratado de Amizade e Paz (1810), em que se conferiu liberdade religiosa, possibilitando a imigração judaica de ingleses, alemães, franceses, ou da presença do Dr. Samuel Edouard da Costa Mesquita como o primeiro rabino em São Paulo (1860).
A imigração judaica à capital e interior paulista ganhou
força, porém, a partir do início do século XX. Como exemplo podem ser citados
os imigrantes judeus de origem russa que seguiram para os núcleos coloniais paulistas
como Nova Odessa, Jorge Tibiriça ou Campos Salles, os sefaradim originários do Império Otomano, os mizrahim (orientais) que se encaminharam para o bairro de Mooca (SP),
e os que aqui chegaram a partir da região europeia (Polônia, Bessarábia,
Lituânia, Letônia, entre outros), fruto das perseguições e situação econômica
precária em seus países de origem. No período “Entre Guerras”, ocorreu a entrada
maciça de imigrantes judeus da Europa (perseguição), porém durante a Segunda
Guerra Mundial, a imigração judaica diminuiu, tanto pelas leis restritivas do
país, como pela dificuldade de saída da Europa. Uma nova onda imigratória
ocorreu no período de 1952 -1962, de judeus provenientes de países árabes e da
Hungria. Dados puderam ser observados em consultas de arquivos no Museu da
Imigração.
A partir do porto de
Santos, de trem, para São Paulo, imigrantes judeus desembarcaram ao longo das
estações ferroviárias e se estabeleceram, em um mesmo período, em diversos
bairros da capital paulista. Fixaram residências no Brás, Ipiranga, Cambuci,
Vila Mariana, Penha, São Miguel Paulista, Lapa, Pinheiros, e em diversas outras
regiões, e ali, muitas vezes, formaram suas sinagogas.
Aguardem mais detalhes! Este texto continua nas
próximas postagens.
Você ou sua família frequentaram ou frequentam sinagogas? Conte mais sobre isso, escrevendo um texto ou comentários. Envie para o e-mail myrinhars@gmails.com
*Este texto faz parte do Trabalho
apresentado para a Disciplina IMU5022 MUSEUS, PATRIMÔNIO CULTURAL E TURISMO NO
CONTEXTO URBANO CONTEMPORÂNEO - PROFA. DRA. CLARISSA M. R. GAGLIARDI - PPGMus
MAE USP


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