terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Histórias da comunidade judaica de Piracicaba

Foto  enviada por Corinne Brick Marian

Atendendo à solicitação que fiz, questionando se você fez ou faz parte da comunidade judaica de Piracicaba, se você conheceu ou frequentou a sinagoga “Círculo Israelita Piracicabano, CIP, fundado em 5 de junho de 1927, que esteve situado em uma casa térrea à Rua Ipiranga, edifício já demolido, ou se possui fotos desta sinagoga, documentos, memórias ou histórias a compartilhar, muitos comentários foram postados no Facebook, por familiares, ou não, da comunidade judaica da cidade. Aqui compartilho estes comentários e dois artigos relacionados à esta história.

Boris Becker, no Facebook, contou: “Meus tios já faleceram todos, o único filho de David Becker que restou foi meu pai. Como não tenho tido contato com ele nos últimos tempos, agora quaisquer tipos de informações se tornaram ainda mais difíceis. Meu avô era mais religioso e maçônico. Veio da antiga Bessarábia. Em Piracicaba, tinha uma loja de móveis que ele próprio fabricava a mão. Era casado com Sarah Polacow Becker. Meu avô era uma pessoa muito simples, até certo ponto antiquada para os padrões dos anos 1950, 1960 e 1970. Após algum tempo, mudou-se para São Paulo, para o bairro de Pinheiros para uma casa bem simples na Rua Sumidouro para ficar mais perto de meu tio Salomão. Lá permaneceu até sua morte, em janeiro de 1976. Em 1977 minha avó Sarah também veio a falecer. Em Piracicaba, meus avós tinham um cachorro chamado Timo, que tinha a mania de enterrar no gramado da casa tudo aquilo que ganhava de comida, inclusive sorvetes. O problema era que, quando ele ia desenterrar os sorvetes, no intuito de comê-los, estes tinham "sumido"!

Esta casa de Piracicaba, depois da mudança de meus avós para São Paulo, passou a ser alugada para o grupo Ultra, por um certo período de tempo, e depois foi vendida. Meu pai sempre estudou em Piracicaba até se formar como Engenheiro Agrônomo na Luiz de Queiroz. A comunidade judaica em Piracicaba até hoje persiste, porém, acredito, tenha diminuído. A última vez em que estive em Piracicaba foi tão somente por um dia, quando meu pai e uma parte de seu núcleo familiar lá esteve, além de alguns amigos de seus tempos de Esalq para comemorar seus 60 anos de formatura em 2006. Após este dia, nunca mais...Isso é um pouquinho daquilo que ainda posso me recordar de meus tempos de crianç quando ia para a casa de meus avós em Piracicaba além daquilo que meu pai me contou em um passado algo que distante. No que tange à fundação da comunidade judaica em Piracicaba, meu avô David Becker foi um dos fundadores desta comunidade por volta dos anos 1915 a 1920, junto com outras poucas famílias vindas da Europa da época da primeira guerra mundial, dos czares, etc. Vieram ao Brasil no intuito de aqui se estabelecerem como, na maioria dos casos, comerciantes, aqui formarem suas famílias, educarem seus filhos e filhas e construírem suas Sinagogas, onde poderiam rezar, comemorar, suas datas religiosas, se reunirem tanto socialmente quanto para estudarem a Toráh, Kabaláh, podendo assim preservar as tradições judaicas trazidas da Europa. A grande maioria dos judeus que se instalaram em Piracicaba eram advindos da Europa, ou seja, Ashkenazim. Toda a minha família de Piracicaba é de origem européia. Meu pai e meus tios já nasceram em Piracicaba. O rio Piracicaba já foi de águas tão limpas que lá meu pai nadava, e também havia pesca de peixes. Hoje este rio é poluído! Piracicaba é uma cidade interiorana boa para se viver, mas, em virtude desta modernidade toda, Piracicaba acabou por se tornar um lugar inseguro para se viver como qualquer outro grande centro mais evoluído aqui existente. Por este motivo, acredito que a comunidade judaica de Piracicaba tenha diminuído nos últimos anos...Infelizmente não possuo fotos de meus avós paternos e de meu pai, pois quando me mudei de São Paulo para Praia Grande fui roubado em quase tudo o que tinha... O nome de meu pai é Manoel Becker, nascido em 09 de abril de 1924, em Piracicaba, o irmão mais velho, Salomão e o mais novo Luiz...” E completou: “Você pode sim publicar o pouco que pude te informar sobre a comunidade judaica de Piracicaba até onde pude me lembrar...”

Marcos Gil lembrou que conheceu uma família cujo bisavô fundou a sinagoga de Piracicaba. Aguardo o contato deste senhor...

Foto enviada por Corinne Brick Marian

Corinne Brick Marian escreveu, a partir do comentário de Marcos Gil: “O meu pai nasceu em Piracicaba. Meus avós paternos e tios sempre moraram lá, desde que vieram ao Brasil, por volta de 1920. Passei boa parte da infância em Piracicaba. Tenho algumas fotos de família, e não me lembro da sinagoga, eu era criança, mas vou tentar encontrar mais informações. Tenho algumas fotos de família que copiei do álbum da minha tia, irmã do meu pai, que nasceu e viveu em Piracicaba. Hoje ela mora no Rio de Janeiro, e estou vendo se consigo que ela mande mais fotos...” Corinne comentou sobre as fotos que compartilhou, e que aqui divulgo: “Na primeira foto, em frente ao Salto de Piracicaba: da esquerda para a direita, meu zeide Germano Brick Z’L, minha tia Elisa Z’L irmã do meu pai, a minha bobe Clara Z’’L Brick, Krasilchik de solteira, e a criança é a minha tia Mirinha, que mora hoje no Rio de Janeiro. Marcelo Brick Meu avô Germano Brick Z'l, minha avó Clara Krascilshik Z'l, e as irmãs do meu pai (que não está na foto), tia Elisa Z'l e tia Mirinha (Miriam Brick) que hoje mora no RJ, Helena KannPaula BrickMyriam Krasilchik. Ao fundo, o famoso Salto de Piracicaba. Na segunda foto, da esquerda para a direita: Estela Rosenthal Weiser (mãe do Roberto Weiser), Dna. Ana Rosenthal, mãe da Estela, ao lado da Rosa Rosenthal. A última menina chama-se Bertioga, de uma outra família, mas não sabermos direito quem é. Foi em um aniversário da minha bisavó, Ana Krasilchik...A terceira foto é muito especial para mim. Inclui a minha bisavó, Ana Krasilchik à esquerda, que faleceu aos 98 anos. Atrás dela está o meu tio por casamento Shepsel Lerner, famoso Chuca-Chuca, que tocava piano e trabalhou no cassino da Urca, onde morou com a minha tia Elisa Lerner, quando se casaram. Ela saiu de Piracicaba para se casar com ele. Tio da Dina Sfat. Longa história de família que se cruza, e se mistura, com a nossa duas vezes por casamento. O mais alto na foto é o meu querido pai, Abram Brick Z”L, que se formou engenheiro agrônomo pela Luís de Queirós. Os outros nesta foto são os mesmos da primeira. Estou vendo com minha tia se tem mais informações, ou fotos, que ela pode me passar e te aviso. Perguntei sobre a sinagoga, ela não tem fotos. Por enquanto foi isso que ela me escreveu: A sinagoga acabou. As Torot foram doadas para São Paulo. As famílias que moravam lá, ou se mudaram, ou morreram. O tio Antchl, o vovô e umas famílias, todos se foram. O prédio era próprio, mas, desativado, ficou em estado lastimável e não sei que fim levou. Tio Antchel era irmão da minha bobe Clara Krasilchik. Minha tia está com mais de 80 anos, mas super bem de cabeça e fisicamente, tem muita história para contar. Falou que o meu tio Anshel Krasilchik desenhou os detalhes esculpidos no Aron Kodesh da sinagoga, onde ficavam as Torot. E era ele quem dirigia a sinagoga, e o meu avô ajudava na leitura da Torah Ela tem um álbum com muitas fotos antigas, mas acho que vai ter que esperar eu ir ao Rio de Janeiro... estou tentando animá-la, mandei o seu blog para ela, quem sabe... Escreveu ainda sobre as fotos: o meu tio Anshel Krasilchik (que dirigiu a sinagoga), os meus avós Clara (Krasilchik) e Germano Brick. A foto, à volta da mesa, estão, da esquerda para a direita Abram Krasilchik (Buminha), meu pai Abram Brick (Bumão), tio Elik e tia Suie Krasilchick (ele, irmão da minha avó Clara Krasilchik), e avós do Mauro Krasilchik, um casal que não reconheço, e em seguida a bobe, velhinha, mãe de Anshel, Elik e Clara Krasilshick ...

Foto enviada por Corinne Brick Marian

Em “Zeladores do Patrimônio”, Rafael T. Simabuko escreveu: “Myriam, peguei o livro "Piracicaba que amamos tanto" e observei que a Estrela de Davi não só era representada na cornija da platibanda da casa, mas também no detalhe do caixilho da janela. Além de procurar pessoas locais, chegaste a pesquisar em algum cartório, museu, Instituto e/ou arquivo de Piracicaba?” Pretende-se buscar mais detalhes nestes locais...

Em Pletzale, também no Facebook, Montenegro Rodrigues indicou  Marcelo e Daniel Rosenthal, e comentou: “O pai do Marcelo, Jaime Rosenthal, já falecido, foi o último, até onde eu soube, presidente da comunidade em Piracicaba, e creio que o Marcelo poderá lhe trazer mais informações e documentos a respeito. O Daniel acompanhava mais o pai, com relação aos assuntos da comunidade. O pouco contato que tive com o senhor Jaime , tinha um projeto de reerguer a fachada da sinagoga, não podia derrubar ela, ela era tombada como patrimônio histórico de Piracicaba, mas pelos relatos, antes do processo ter terminado , alguém que tinha a posse do prédio, derrubou-a... o Jaime estava buscando a reconstrução de algo como um memorial, com a fachada reconstruída como a original, estávamos tentando reunir os remanescentes, mas estava difícil, muitos foram embora de Piracicaba e outros não tinham interesse, ai a saúde do Jaime piorou, faleceu , eu me mudei de Piracicaba. Outra informação: o Jaime conseguiu junto ao poder público municipal, instituir o dia da "lembrança" no calendário oficial do município, para lembrar e nunca se esquecer do Shoah. Mas acredito que o Daniel vai saber informar melhor...”

Em um artigo do site do G1 Piracicaba e Região, por Fernando Jacomini e Samantha Silva, de 15 de outubro de 2015, lemos que “Salomão Becker, nascido em Piracicaba (SP), cidade a 165 quilômetros da capital paulista, teve a ideia de celebrar a data do Dia do Professor em um encontro de professores”. A data se tornou oficialmente feriado escolar em 1963. Sérgio Becker, filho do sr. Salomão, relatou, para este artigo, que para o pai "em educação, não avançar já era retroceder". O texto informa que sr. Salomão Becker passou boa parte da infância em Piracicaba, morou na Rua Governador Pedro de Toledo e estudou na Escola Estadual Sud Mennucci. Aos 18 anos, veio para a capital para continuar os estudos, como muitos jovens o fizeram. Estudou filosofia na USP, onde também cursou história, sociologia e pedagogia. Lecionou em várias escolas, como no Colégio Caetano de Campos.  “Segundo Sergio Becker, o pai sempre lembrava, emocionado, das ruas, do rio, da Escola Normal (como se chamava a sua escola no passado), dos vizinhos e das músicas de infância...” Sr. Salomão Becker nasceu em 23 de fevereiro de 1922 e faleceu em 2006, aos 84 anos. Era filho de imigrantes europeus que partiram em 1913 rumo ao interior paulista, em busca de melhores condições de vida. “...Depois de aposentado, “com mais de 60 anos, sr. Salomão decidiu cursar direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie e, ao se formar, foi convidado pela direção para ministrar aulas de Direito Internacional...” Leiam mais em https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2018/10/15/para-meu-pai-educacao-nao-avancar-ja-era-retroceder-diz-filho-de-criador-do-dia-do-professor.ghtml

Sr. Jayme Rosenthal, em um texto sob o título “Meu tempo em Piracicaba”, divulgado no site do IHGP, em 2014 relatou: “Nasci aos 20 de julho de 1940 em Barretos, e, em 1941, mudamos para Piracicaba. Filho de Pedro e Anna Rosenthal, tive a felicidade de conviver com meus irmãos, Elias, Ester, Rosa, Paulina e MendeI. Sou do tempo do Hotel do Lago, onde nos hospedamos quando chegamos a esta cidade, ao lado da farmácia do Frota, na Rua São José, esquina da Praça, tendo, de um lado, o Teatro Santo Estêvão e do outro, a fábrica de gelo do Jorge Maluf, em frente ao Cine Broadway. Sou do tempo em que, na Rua da Boa Morte, 1676, onde moramos até o ano de 1947, brincávamos na calçada, de cabra cega, morto, pulávamos amarelinha...” O texto cita locais e pessoas que marcaram a memória do sr. Jayme: a estação da Paulista, a estação de trem da Vila Rezende, a Escola de Agronomia, Dr. Francisco Toledo, Dr. Lula, Samuel de Castro Neves, João Ferreira, Lico da farmácia Neves, armazém do Simionato, sapa­taria do Arzola, padaria Central, vidraçaria do pai do Samuel Pfromm Neto, Benedito Glicério Teixeira, o conde de Lara Campos, o largo do mercado, o Grupo Escolar Barão do Rio Branco, professora Zélia de Azevedo, Nini Zangelmi, Lourdes Diehl, o diretor Aparício Madureira, o Sud Mennucci, os professores Joêo e Arquimedes Dutra, Uno Sansigolo, Antonelo de Moraes, Maria Celestina Teixeira Mendes Torres, Benedito de Andrade, Demóstenes Santos Corrêa, o Colégio Piracicaba, o diretor Armando Penaforle de Amorim, os professores Josaphat de Araújo Lopes, João Monteiro, Miss Pamela Mac Fadden, maestro Germano Benencase, o Atilio Gianetti, o Hotel Central, casa Edson, Tabacaria Tupã, Bar Comercial, Leiteria Brasileira, RestauranteA Baiana, Bar do Tanaka, Bar Nova Aurora, Banco Inco, Renner, Cantina do Vicentão, Bomboniére do Passarela, Sorveteria do Pinki, o Cine São José, o Éldio Rolim, o Hotel dos Viajantes, a casa Nova York, casa do Norte, Casa Inglesa, casa Nely, A Nacional, posto São Paulo, mercearia Pingüim, Casa Polacow, Casa Rosenthal, Agostinho Martini Neto, o Nino e Lígia Gobbin, o Curtinho (pai do João Pauli) e Pedro Sallum, Neder, Sallum, Usberti, Regitano, Dondeli, Cobrinha, Airton Nascimento, Pedro Alexandrino, a casa do Tufi Elias, pai de Cecílio Elias Neto, o Dr. Celso Galdino Fraga, o Dr. Andreas Aranha Schmidt, o Paulo Granato, Pedro Bella, Benedito Sérgio, Módolo, Boralli, Walter Hahn, Branca Leite Marcondes, o Lar Betel, Dr. Losso Neto, Sebastião Ferraz, Leandro Guerrini, Flávio Toledo Piza, Cecílio Elias Neto, Marina Tricânico, José Benedito de Camargo, Salvador de Toledo Piza, Walter Radámes Accorsi, Nair Arantes de Carvalho, Antônio Romano, Alberto Thomazi, Eugênio Nardin, os prefeitos Samuel de Castro Neves, Luiz Dias Gonzaga, Luciano Guidotti, de Ari, Elias, Idiarte, Cardoso, Strauss e Adolfinho, Demaria, SaIo, Picolino, Gatão e Rabeca, do basquete do XV, Vlamir, Pecente, Mané, Paula Mota, Nascimento, Buck, José Carlos, a Escola de Comércio Cristóvão Colombo, do Prof. Antônio ítalo Zanin, Angelo Bertoco, professores Fioravante, Frederico Blaauw, Aurélio Scalise, Acácio Oliveira, Antônio Romero, a Faculdade de Direito de Piracicaba. E escreveu ainda: “Sou do tempo em que o piscoso rio Piracicaba, na época da piracema, nos oferecia um espetáculo colorido, com dourados, pintados, jaús, piracanjuvas, mandis, pulando, tentando vencer a correnteza do salto...” Cita o Garcia, as indústrias Engenho Central, Fabrica Boyes, Dedini e Monte Alegre, e, “nos dias de pagamento, meu pai, Pedro Rosenthal, proprietário da casa Rosenthal, que vendia móveis e roupas feitas, entregavam cartões para cobrança, pois o crediário naquela época era de absoluta confiança. O cliente não assinava nada e o slogan de com dinheiro ou sem dinheiro Rosenthal é companheiro, é lembrado até hoje...Hoje, estou no tempo de minha esposa, Célia, dos meus filhos, Daniel, Marcelo e Celita, minha nora, Bianca, minha irmã Dra. Laurisa Cortelfazzi, de José Machado, Antônio Oswaldo Storel, Esther Sylvestre da Rocha, tempo de Thame, Roberto Morais e João Hermann, tempo do Dr. Luiz Henrique Zago, Drs. Hamid, Mauro, Xavier, Cláudio do Prado Amaral, Joacir Curi, Evaldo Vicente, Ercilio Oenny, Antônio Lara, Marcelo Batuíra, Anloníetla Rosalina, Marcelo Rosenthal, safra nova, atualizada, que forma um novo tempo, alicerçados pelo meu tempo vivido...” Leiam o texto na integra em:https://www.ihgp.org.br/wp-content/uploads/2014/09/Revista-do-IHGP-Vol.-10.pdf

Compartilhe você também suas memórias e histórias não só da sinagoga e comunidade judaica de Piracicaba, como também das outras cidades de São Paulo. Deixe seu comentário ou escreva para myrirs@hotmail.com

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Círculo Israelita de Piracicaba e a comunidade judaica da cidade.

Foto: Sinagoga de Piracicaba
Centro de Memória - MJSP
(não autorizado compartilhar)

Venho buscando informações sobre as sinagogas de São Paulo, tanto da capital, como do interior paulista. Na última postagem do Blog que escrevo, relativo às Sinagogas em São Paulo, Arte e Arquitetura Judaica, questionei se você fez ou faz parte da comunidade judaica de Piracicaba, se possui fotos, documentos, memórias ou histórias a compartilhar. Também perguntei se você conheceu, ou frequentou, a sinagoga desta cidade, o “Círculo Israelita Piracicabano, CIP, fundado em 5 de junho de 1927, e que estava situado em uma casa térrea à Rua Ipiranga, edifício já demolido. 

Com a colaboração da comunidade judaica que morou, e dos que ainda moram, em Piracicaba, de muitos moradores da cidade, de informações disponíveis em publicações e em sites, como o do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, e de álbuns de fotos disponíveis para consulta no Centro de Memórias do Museu Judaico de São Paulo, vem sendo possível reunir detalhes sobre a comunidade e sua sinagoga.

No Facebook, na página “Sinagogas em São Paulo”, por exemplo, Marcelo Rosenthal encaminhou uma foto, de Laurisa Cortellazzi, em frente à sinagoga. Na época em que foi vereadora propôs o tombamento do edifício. Marcelo comentou: “Infelizmente o prédio onde funcionou a sinagoga foi demolido pelo proprietário, que foi acionado pelo Ministério Público. Na época que a sinagoga funcionava, não sei dizer se o prédio era próprio, mas pelo que lembro meu pai contar, creio que não. Posteriormente, nos anos 90, foi iniciado um processo de tombamento, o edifício foi demolido repentinamente e, por isso, o Ministério Público entrou com uma ação judicial, cujo desfecho desconheço. O Sefer Torah da sinagoga de Piracicaba não foi para São Paulo. Foi para o Kibutz Bror Chail em Israel. Eu tenho mais fotos da sinagoga, nos arquivos do meu pai e vou procurar.” Busco detalhes sobre este edifício, assim como a quem pertencia o mesmo, quando este foi demolido.

Em 18 de setembro de 2019 estive no Centro de Memória do Museu Judaico de São Paulo e, como sempre, fui muito bem atendida pela Maria Theodora C. F. barbosaEnquanto verificava a listagem do acervo, encontrei um item relacionado à minha pesquisa, que resolvi olhar: Sinagoga de Piracicaba. Há 2 álbuns com "fotos de contato", de Elias Rosenthal e 1 foto ampliada (CI0005-FOT-SIN/0247 - RT\G32\J560), que aqui compartilho, da fachada da sinagoga, que pode ser comparada à enviada pelo Marcelo Rosenthal, e às disponíveis nos links apontados abaixo. O compartilhamento da foto não está autorizado. Para tanto, entrar em contato com o Centro de Memória do Museu Judaico

Sobre a Sinagoga de Piracicaba, ou melhor, “Círculo Israelita de Piracicaba” há informações publicadas na “Série Patrimônio Cultural de Piracicaba - Volume 2 - Igrejas” (Piracicaba DPH – IPPLAP 2012). O texto desta publicação descreve que “com a finalidade de exercerem de forma mais adequada seus ritos religiosos, o Círculo Israelita de Piracicaba fundou sua primeira sinagoga, inaugurada em 05 de junho de 1927. A Sinagoga de Piracicaba tem sua história ligada à da imigração de famílias judias que, desde o final do século XIX, inseriram-se à sociedade local. Na primeira metade do século XX, somavam-se cerca de 40 famílias judias, residentes em Piracicaba e região...” Durante 43 anos, a Sinagoga exerceu “suas funções cultural, social e religiosa, atuando na sociedade piracicabana por meio de seus atos caridosos”. Consta, nesta publicação, que a partir da década de 1960, muitas famílias deixaram a cidade e a comunidade foi diminuindo. Decidiram-se pela venda da casa, em cuja fachada estava representada a Estrela de David, “doando os recursos obtidos com a venda para a construção de um pavilhão para abrigar crianças órfãs em Israel”. Porém o local “continuou sendo um ponto de referência histórico e cultural para as famílias judias que continuaram morando na cidade de Piracicaba...e antiga sinagoga, ainda que em desuso, representava uma série de experiências comuns a uma sociedade que compartilhou de uma mesma história e de um mesmo processo... e a possibilidade, ainda que por mera apreciação externa do local, de manter vivos seus laços de continuidade com o passado, representados em sua fachada...” O prédio, ativo até 1070, e “demolido sem autorização em agosto de 2001, encontrava-se em processo de Tombamento municipal desde maio do mesmo ano, e apesar de um auto de embargo encaminhado pela Secretaria de Obras de Piracicaba, a demolição deu-se até o final, lesando assim o direito à memória de toda uma comunidade...” Em 2012, época da publicação do texto, a comunidade judaica de Piracicaba e região contava com 70 pessoas, que se reuniam frequentemente, para comemorar as festas judaicas, em espaços alugados pelas famílias.

Há uma foto, em preto-e-branco, da fachada do antigo Círculo Israelita de Piracicaba, na página 39 desta série. Foto semelhante à disponível no Centro de Memória do Museu Judaico de São Paulo. Veja o texto completo e a foto nos sites https://docplayer.com.br/8914264-Serie-patrimonio-cultural-de-piracicaba-volume-2-igrejas-piracicaba-dph-ipplap.html e http://ipplap.com.br/site/wp-content/uploads/2013/03/igrejas-3.pdf

No livro “Piracicaba que amamos tanto”, de Cecílio Elias Nettto (IHGP - Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba - 1ª edição - São Paulo. Piracicaba 2), à página 82, há também uma foto da fachada, em preto e branco, e um pequeno texto relativo a esta sinagoga: “Círculo Israelita de Piracicaba - Inaugurada em 5 de junho de 1927, a Sinagoga de Piracicaba tem sua história ligada à da imigração de famílias judias. Prédio demolido em 2001”. Veja o link: https://www.aprovincia.com.br/core/wp-content/uploads/antigo/2016/11/c7dd363fdb3fcba96eaf0b9c71c624ab.pdf

Relacionado a este Tombamento, há informações, na internet, sobre imóveis em processo de tombamento pelo CODEPAC (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural – Conselho Municipal de Piracicaba). Dentre estes imóveis, podemos verificar detalhes sobre a Sinagoga de Piracicaba: “Antiga Sinagoga (demolida). Localização: Rua Ipiranga, 826 - Centro. Aberto Processo de Tombamento em 04 de maio de 2001”. Mais detalhes podem ser consultados no site: https://www3.faac.unesp.br/patrimonio/Leis/Municipais/piracicaba/Imoveis%20em%20processo%20de%20tombamento%20pelo%20CODEPAC.pdf  

Ainda sobre este processo de Tombamento, mais detalhes estão disponíveis na internet. Pode-se ler “Edital de convocação de reunião ordinária, de abril de 2018, pela Secretaria Municipal da Ação Cultural e Turismo da Prefeitura do Município de Piracicaba – SP... o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do Município de Piracicaba(CODEPAC) se reúne com seus Conselheiros e Conselheiras para a reunião ordinária no dia 13 de abril a fim de se analisar os documentos e assuntos constantes na seguinte pauta...Expediente Item 3...Assunto: comunicado Localização: Rua Ipiranga, 826 (Antiga Sinagoga)”.  http://conselhos.piracicaba.sp.gov.br/codepac/files/2018/04/Ord.-n%C2%BA-04-de-13.04.18-Ed.-Convoca%C3%A7%C3%A3o-FINAL.pdf

A Sinagoga de Piracicaba foi registrada como Círculo Israelita Piracicabano, uma associação privada, e situava-se à Rua Ipiranga, 826, Centro de Piracicaba.

Vários comentários foram feitos no Facebook a partir da publicação das histórias de sr. Mauro Krasilchik e sr. Bernardo Blumen.

Sr. Helio Pilnik indicou Marcos Rosenthal, Horácio Rosenthal, Sueli Utchitel, Marta Benatti e Ana Maria Benatti Marta Benatti escreveu: “Eu conheci onde era a sinagoga da Rua Ipiranga. Não sabia que foi demolida. Uma casa amarelinha. Renato teve aula com o Guilherme, na faculdade. Com o Jaime ele comprou e vendeu carros. Não tenho fotos e, também, não sei quem eram os proprietários. Sei apenas do processo. Na última venda do prédio, foi oferecido ao meu marido, mas já estava em processo de tombamento. Isso há mais de 30 anos atrás. E assim estava, até eu saber, por aqui, que foi demolida. Era uma casa simples, com porta e janela para a rua e uma enorme Estrela de David na fachada, feita de cimento, acredito...” Sr. Helio Pilnik comentou : “Marta Benatti, que legal, você mostrou a história para o Renato? Tem um dentista na história, tem o Jaime Rosenthal que ele me disse que conheceu...”

Bernardo Blumen agradeceu, em relação à postagem que fiz, relativa à sua família em Piracicaba: “Myriam, mais uma vez parabéns pelo trabalho. Ele reproduziu a realidade do período em que morei em Piracicaba, de 1945 a 1960. Foram 15 anos convivendo com aquela comunidade...” E Estephani Blumen escreveu: “Está é a história da minha família. Parabéns pelo trabalho!”

Frida Gasko Spiewak deixou também um comentário: “Parabéns à Myriam por resgatar a história da comunidade judaica de Piracicaba Agradeço ao Bernardo Blumen por lembrar o nome do meu saudoso avô materno Salomão Salzstein z"l. Tenho relatos de Piracicaba que brevemente enviarei a MYriam. Minha mãe, Mina Gasko, se formou professora na escola Normal de Piracicaba. Salomão Becker z"l e família (pais e irmãos) também são de Piracicaba. Salomão Becker foi diretor do Iavne. Bernardo, excelente seu texto sobre a vida judaica em Piracicaba.”

Ester Pintchovski escreveu: “Muitos destes nomes ouvi do meu pai Isaac Krasilchik, até estivemos em Piracicaba...”

Silvio Ary Priszkulnik elogiou: “Que trabalho!”

Sr. Mauro Krasilchik comentou, também no Facebook:  “Arrasou Dutche, maravilhoso relembrar as estórias da família Bernardo Blumen. Orgulho de ser Krasilchik, obrigado pela homenagem Myriam Szwarcbart. André LevySaulo LevyDaniel Levy e Igal LevyCorinne Brick Marian , Marcelo BrickMyriam KrasilchikMiriam BrickDavid KrasilchikAna Cândida Krasilchik, estória maravilhosa da nossa família”. Após seu comentário inicial, escreveu também: “Marcelo Brick, lindas palavras primo, nada paga a emoção de revivermos a nossa estória que com certeza ficará marcada para o resto de nossas vidas... Nessa publicação que emocionou à todos da família, posso ter deixado de mencionar algumas pessoas que também foram importantes em nossas vidas, mas infelizmente a nossa convivência diminuiu com o passar do tempo. Quero aqui pedir desculpas se isso realmente aconteceu, mas não foi a minha intenção... muito importante para o nosso dia a dia. Um grande abraço primo e obrigado mais uma vez em compartilhar esses ótimos bons momentos que passamos na nossa infância e em nossas vidas.”

Marcelo Brick comentou também no Facebook: “Mauro Krasilchik e Myriam Szwarcbart, muito obrigado, muito emocionante essa homenagem e essas lembranças. O Mauro contou tudo, passávamos nossas férias nas casas dos nossos respectivos avós. Os meus, Clara Krascilchik Brick Z'l e Germano Brick Z'l La encontrávamos outros tios e primos. As irmãs de meu pai, Elisa Lerner Z'l, casada com Chepsel Lerner (grande músico que fez história e carreira no Rio, tocando no Cassino e em cerimônias no palácio presidencial, pais da minha querida prima que se foi cedo Silvia Lerner Z'l e Gustavo Lerner, hoje morando na Itália. E minha outra tia Miriam Brick Sterenkratz, casada com Marcos Sterenkratz Z'l, pais do primo Gilberto Brick, pai da doce Evinha, todos morando no Rio. Lá na casa dos meus avós também moravam meu tio Anchel Z'l e minha bisavó Hana Z'l, que carinhosamente chamávamos de Bobbi velhinha, faleceu com 98 anos lúcida. Anos incríveis. Lembro que corríamos ladeira abaixo até a linha férrea quando o trem passava apitando. Tempos que não voltam, mas nunca saíram das nossas memórias. Quem pode ajudar também é o Roberto Weiser, nativo da terrinha e da já citada família Rosenthal por parte de sua mãe Stela Z'l...Lembrando sempre da queridíssima, e já citada cientista brilhante da USP, Myriam Krasilchik e sua mãe Regina Z'l (pra mim tia Regina) da já citada família Werdeshein...” E mencionou Mauro Krasilchik ao continuar, relacionado ao afastamento dos dois: “Verdade, nem a minha, foram rumos que a vida toma independente da nossa vontade, mas aqui estamos resgatando essas memórias...grande abraço, primo...”

Questionei sr. Mauro Krasilchik e Marcelo Brick se eles se lembravam de como era a fachada da sinagoga e como era o edíficio internamente. Mauro Krasilchik comentou que foi poucas vezes à sinagoga, era uma casa normal “e o tipo de construção era idêntica das sinagogas do Cambuci, Lapa ou Brás...antigamente as sinagogas tinham o mesmo estilo de construção. Fazem muitos anos com certeza, mas acredito que seja sim porque a entrada era de uma casa normal, a estrela de David que está na parte superior da casa eu não me recordo dela

Marcia Landen Burkinski e Alberto Kessel  indicaram, também, Roberto Weiser: “Ele deve saber de tudo por lá...”

Você fez ou faz parte da comunidade judaica de Piracicaba? Conheceu ou frequentou sua sinagoga, o “Círculo Israelita Piracicabano, CIP, fundado em 5 de junho de 1927, e que estava situado em uma casa térrea à Rua Ipiranga, edifício já demolido? Possui fotos desta sinagoga, documentos, memórias ou histórias a compartilhar? Escreva para myrirs@hotmail.com

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Comunidade judaica de Piracicaba...muitas histórias...


Bar-Mitzva de sr. Bernardo Blumen em Piracicaba
Bar-Mitzvah sr. Bernardo Blumen
Piracicaba

Após a última postagem no Blog das Sinagogas em São Paulo, “A comunidade judaica de Piracicaba”, sr. Bernardo Blumen registrou diversos comentários, tanto naquela postagem, como no Facebook. Também pudemos conversar pelo Whatsapp, neste mês de novembro de 2020. Agradeço muito a participação de sr. Bernardo Blumen, e aqui compartilho suas histórias e fotos: 

“Aqui é Bernardo Blumen. Recebi, pelo meu filho Jack, o link sobre o trabalho que você está fazendo sobre a coletividade judaica de Piracicaba. Mauro Krasilchic, que me passou seu contato, é meu primo de 2° grau. Fiquei escrevendo sobre a história da minha família e alguns complementos que ali não constavam. Minha família, Blumen, se estabeleceu em Piracicaba desde 1945. Eu ainda tenho em Piracicaba uma cunhada e duas sobrinhas de sobrenome Blumen. Morei em Piracicaba até o ano de 1961, ano em que vim morar em São Paulo. 

Meus pais, sr.Leib (Leão) Blumen e sra. Helena(Enta) Eliukin, vieram, os dois, da Bessarábia. O meu pai veio de Britchive, hoje Moldávia, e minha mãe, de Sucaron. Meu irmão, Guilherme, nasceu em Olímpia, perto de Barretos, em 1939. Eu, nasci no Rio de Janeiro, Madureira, em 1942. Meus pais se conheceram em São Paulo. 


Sr. Leib Blumen
Os meus avós paternos eram sr. Iankel Blumen e sra. Feiga Blumen, e maternos sr. Gherson Eliuchin e sra.Tirel Eliuchin. A minha avó materna, só a conheci muito pouco, pois ela morava no Rio de Janeiro. Nenhum parente, por parte da minha mãe, sabe informar de onde veio o sobrenome Eliuchin, tendo em vista que a família é Barg. 

Quando eu tinha doze anos, minha mãe comprou uma charrete com uma égua a fim de facilitar a sua locomoção para as vendas de roupas e o recebimento das prestações. Nunca tiveram loja aberta, sempre a loja era dentro de casa em um local destinado exclusivamente para isso. A técnica era nunca deixar o "freguês" terminar de pagar a conta. Dois meses antes, já ofereciam outra mercadoria e eles compravam. Nos dias de pagamento das grandes empresas, lá estava ela para receber as prestações. Naquela época os empregados recebiam em dinheiro. 

O meu pai era muito bom na aritmética. Num determinado momento ele falou que a receita não estava compatível com os recebimentos. Um dia, minha mãe tirou de um bufê que tinha na sala, o equivalente hoje a R$1000.000, entregou para o meu pai e disse, vai para São Paulo e compra outro apto. 

Sra. Helena(Enta) Eliukin 

E assim foi. Comprou um apartamento na Rua Ribeiro de Lima onde eu morei quando me casei, de abril de 1969 até final de janeiro de 1972. No final de 1972, compramos o nosso apartamento novo, decorado, na Alameda Franca, onde estamos até agora. 

Aqui, criamos os dois filhos até cada um se casar. Assim como minha esposa os dois foram criados na CIP e na Chazit. Eu e a Lydia nos casamos na CIP, meus filhos fizeram Bar Mitzvah e se casaram na CIP. Nós éramos muito amigos do Rabino Sobel. 

Eu cito no meu descritivo o avô materno da Frida Gasko, que foi o primeiro a dar crédito aos meus pais, a fim de que eles começassem o seu pequeno negócio de venda de roupas. O nome dele era Salomão Zalstein. A primeira vez que vim para São Paulo, ainda criança, foi ele que me trouxe numa viagem de trem de quatro horas...”

Questionei se sr. Bernardo possuía detalhes sobre a sinagoga, e se reconhecia as fotos da fachada, que enviei a ele. Sr. Bernardo comentou: 

Sr. Iankel Blumen

“Frequentávamos a sinagoga, porém por essas fotos não reconheço a fachada. E, lamento, mas não tenho nenhuma foto”.  Porém, descreveu um pouco a Sinagoga: “Era uma casa térrea, na entrada tinha uns três degraus, logo à direita tinha uma "cerca", de madeira, e dentro ficavam as mulheres. Em frente, num outro espaço, ficavam os homens, e era onde ficava a Arca Sagrada com a
Torah. Seguindo, em frente, havia um quarto vazio, cimentado, onde se acendiam grandes velas em Kol Nidrei. Sempre ficava um garoto não judeu tomando conta das velas. Mais em frente tinha um quintal e tinha um grande pé de amora e as crianças se deliciavam. 

Na nossa casa, no dia anterior ao Kol Nidrei minha mãe comprava um galo, uma galinha e dois galinhos. No dia de Kol Nidrei, logo pela manhã, antes de irmos para a escola, era feito a Kapara

Meu pai fazia as rezas e uma vez de cada um girava a ave em cima da cabeça. Quando cada um terminava, arrancávamos uma pena dela, e a jogávamos embaixo da mesa (elas estavam com os pés amarrados). A gente tinha galinha por um bom tempo, apesar de que os galos ter a carne mais dura. 

Sra. Feiga Blumen

Ainda na véspera ou no dia do Kol Nidrei, as crianças iam nas casas dos outros judeus, e quando abriam a porta, geralmente eram as esposas, a gente falava em Idish, "Ir guechimen beiitem leiquer mit bronfm”. Traduzindo, caso você não tenha entendido: “Eu vim pedir bolo com pinga”. Apesar de fazerem muitos anos, isso ainda está muito fresco na minha memória. Esse ritual foi feito durante muitos anos, até ser trocado por donativo para alguma instituição judaica. 

Minha mãe jejuava em Yom Kipur, meu pai e nós não. Como já havia dito, na hora do almoço as crianças masculinas iam ao mercado Municipal comer pastel de carne e chupar tamarindo. A Lydia, minha esposa faz o jejum até hoje e não sente absolutamente nada. Sr. Benjamin Rosenthal, a esposa Frida, e os filhos Clara, Marcos, Horácio e Sueli, que moravam em Barretos, vinham para Piracicaba nas Grandes Festas, e juntavam-se à família que morava na cidade. 

Meu irmão Guilherme fez Bar-Mitzvah em março de 1952. A cerimônia de Talit e Tefelin foi na Sinagoga da rua Ipiranga. Quem ensinou as Brachot foi um senhor que era irmão do avô do Mauro Krasilchik, e era ele que, também, fazia as rezas em Rosh Hashanah e Yom Kipur

Sr. Leib Blumen

A festa foi na nossa casa, no quintal, que era bem grande e toda a coletividade foi convidada. Quem fez toda a comida foi a avó do Mauro que cozinhava muito bem

O meu Bar-Mitzvah foi em maio de 1955, também na Sinagoga, e a festa também foi na nossa casa, à noite, e toda a coletividade estava lá. Só que, dessa vez, meu pai trouxe uma cozinheira de São Paulo, que era especializada nesses eventos. 

Outro detalhe é que eu, meu irmão Guilherme, e o Jaime Rosenthal começamos a aprender a tocar violino. Após alguns meses, somente eu continuei, fui à um conservatório que havia em frente à minha casa, toquei em diversos recitais e em orquestra. Parei de tocar aos dezoito anos quando já estava morando em São Paulo e fazendo cursinho para o vestibular...”

Sr. Bernardo compartilhou diversas fotos, que aqui compartilho: “A foto do meu avô paterno; do meu pai Leib Blumen em 19....; do meu pai com os irmãos no Rio de Janeiro (da esquerda para a direita  Nathan, o mais velho casado com Clara, uma filha, Lucia; Ida a segunda mais  velha casada com Chai Parnes; filhos, Pesse, que vai fazer 97 anos em março; Daniel, já falecido e Chua também falecida; Moishe casado com Clara, os dois falecidos e que não tiveram filhos; meu pai; Molka casada com David Goldemberg; dois filhos, Sally, já falecida e Jacob, 84 anos; Meir casado com Joana, os dois já falecidos; duas filhas, Fany, já falecida e Freida, 70 anos). Outra foto, de minha mãe, Helena, já falecida e uma foto no meu casamento civil. Vemos mais uma foto onde, à esquerda, está meu irmão Guilherme, já falecido; à direita, eu; no centro, uma moça que trabalhava em casa em Piracicaba, éramos crianças. Foto do meu Bar-Mitzvah em Piracicaba. Segue uma foto comigo, minha mãe e meu irmão, no quintal da minha casa. Mais uma foto: as irmãs da minha mãe (da esquerda para a direita, minha mãe Enta ou Helena, Hasia, Lhuba, Rifca e Esther, faltaram dois irmãos, todos já falecidos).  E uma foto da minha avó paterna; uma foto do meu pai, mais recente do que a primeira, já em Piracicaba. 


Veja a foto onde apareço tocando violino, com doze anos, e a foto na Formatura do meu irmão Guilherme, Odonto. Por último, a foto de minha formatura, no Teatro Municipal de São Paulo (Mitsu, a segunda esposa do pai da Lydia, Abraham, pai da Lydia, Lydia, eu, minha mãe, meu pai e meu irmão)”.

Um detalhe interessante a ser lembrado, como contou sr. Bernardo: “Quando meu irmão Guilherme nasceu, meu pai foi registrá-lo. O cartorário perguntou: O filho é natural ou legítimo? Meu pai respondeu: Natural que é meu filho. Aí, a certidão de nascimento do meu irmão ficou registrado como filho natural, o que significava, naquela época, filho de pais não casados. Essa falha só foi arrumada, em Piracicaba quando meu irmão tinha dezoito anos. 

Outra curiosidade: durante o período em que fiz o ginásio no colégio Piracicabano, eu tinha amizade com um jovem que também estudava no mesmo colégio, chamado Cesário de Campos Perrari. O pai dele tinha uma empresa funerária, e muitas vezes nós dois íamos para o colégio de carro funerário. Ele era muito meu amigo, e vivíamos muito um na casa do outro. Eu suponho que ainda esteja vivo...”

Sr. Bernardo, a mãe e irmão

Sr. Bernardo completou algumas informações divulgadas anteriormente: “O Mauro Krasilchik não comentou que tinha uma irmã, mais velha, cujo nome era Jane, casada com Igal, e tiveram quatro filhos, sendo dois gêmeos. A Jane já é falecida há mais ou menos oito anos. Mauro citou dois filhos da família Brick, do Marcelo. Até 1961, sei que os filhos de sr. Abraham e sra. Selka Brick não moraram em Piracicaba, e não eram da cidade. Somente o sr. Abraham Brick era da de Piracicaba, e se casou com a sra. Selka, que era farmacêutica. Aí eles se mudaram para São Paulo, aqui tiveram os dois filhos, e aqui moraram. Sr. Abraham e sra. Selka, eu os encontrava nos finais de semana na Hebraica. Ele, a gente chamava de Bumao, e o outro Abraham, o Krasilchik, pai do Mauro e da Jane, já falecida, e casado com a minha prima Bela, era o Buminha.e Sara. E Clara era a mãe do Abrão, e da Miriam Brick. Com relação à Myriam Krasilchik, vivia para a mãe, e sempre foi uma sumidade. Ela é prima de um rapaz aqui de São Paulo, chamado Luiz Werdeshein, que fora casado com uma prima minha de nome Shirley, que faleceu precocemente aos cinquenta anos de idade. O meu apelido, dado pelo meu irmão era Dutche, pois na época da segunda guerra ele ouvia falar no Duce (Mussolini), e o apelido do Mendel Rosenthal era Dodo. A senhora velhinha falecida, a que todos nós a chamávamos de Babi, era a mãe do avô do Mauro Krasilchik, e mãe daquele que fazia as rezas na Sinagoga... Todos os sábados e domingos à noite muitos se reuniam da casa da Clara, ou do avô do Mauro... Os homens jogavam buraco e as mulheres jogavam conversa fora tomando chá e comendo bolo...”

Formatura sr. Bernardo Blumen

Marcelo Brick comentou, a partir do relato de Bernardo Blumen: “É isso, Bernardo, meu pai, Abram Brick, o Buma ou Bumão, (o primo Buminha - o outro Abram, era o pai do Mauro Krasilchik), nasceu em Piracicaba e morou lá até terminar a faculdade, depois se mudou pra São Paulo, onde casou e se estabeleceu. Minha tia Elisa, que já citei, era a irmã mais velha do meu pai, e já morava no Rio desde que se casou. E minha tia Mirinha, que ainda morava lá, acabou se casando com um carioca também, e se mudou para o Rio. Depois que meu avô Germano Brick faleceu, no final dos anos 1960, minha vó foi morar no Rio, próximo às duas filhas. 

Eu era muito criança, nasci em 1960, então tenho lembranças não tão nítidas, não lembro da Sinagoga, mas sei que havia. Inclusive até onde eu sei, foi a sua prima Bela Z'l quem apresentou os meus pais. E sim, já em São Paulo, costumávamos ir à Hebraica aos domingos. 

Formatura sr. Guilherme Blumen

Obrigado por compartilhar essas memórias e histórias! Indico para procurar no Facebook, o Roberto Weiser, acho que ele não está nesse grupo. Ele é nascido em Piracicaba, a família da mãe é Rosenthal, já citada por você. Acho que ele deve ter informações e fotos, já que ele é de lá e ainda tem família morando em Piracicaba (ele mora em São Paulo há muito tempo já)...”

Mauro Krasilchik também escreveu: “Primo Bernardo Blumen, realmente tudo o que escreveu aqui colaborou também para que pudéssemos lembrar da coletividade judaica em Piracicaba. Tenho certeza também que tudo o que falou do Bumão e da Selka Brick, pais do Marcelo Brick, da Corinne Brick Marian e da Estela Brick, a nossa Estelinha, está correto, acho que não moraram em Piracicaba e sim os avôs maternos e paternos, tios e primos. 

Os meus pais, Abram Krasilchik, que era conhecido como Buminha, e a minha mãe, Bella Medvedi Krasilchik, também não moravam em Piracicaba, mas se conheceram e casaram na casa dos meus primos Bernardo e Guilherme Blumen, e de seus pais, que eram meus tios Leibale e Yente Blumen. 

Muitas saudades e muitas estórias de tudo isso que passamos em Piracicaba. Agradeço a todos pela colaboração...”

Sr. Helena com as irmãs

Sr. Bernardo completou: “Espero ter cooperado para a história que a Myriam está escrevendo, sobre a coletividade judaica de Piracicaba. Fiquei também muito feliz de ter podido cooperar, resgatando as memórias de nossa comunidade judaica de Piracicaba, da qual tenho muito orgulho de ter pertencido...”

Neste post compartilho as fotos encaminhadas por Bernardo Blumen, com sua autorização.

Você fez ou faz parte da comunidade judaica de Piracicaba? Conheceu ou frequentou sua sinagoga, o “Círculo Israelita Piracicabano, CIP, fundado em 5 de junho de 1927, e que estava situado em uma casa térrea à Rua Ipiranga, edifício já demolido? Possui fotos desta sinagoga, documentos, memórias ou histórias a compartilhar? Escreva para myrirs@hotmail.com